O vizinho flamenguista

Curitiba, 10 horas da noite. Estou na casa da minha namorada, enquanto ela faz um trabalho do mestrado e eu começo a fazer as postagens do meu blog. Vi mais cedo no jornal esportivo na TV (sim, assisto TV às vezes), que o Flamengo iria jogar. Simplesmente ignoro, pois acompanho mais os times daqui do que os de fora, mas nada contra quem gosta. O vizinho do prédio começa a gritar enlouquecidamente. Ignoro na primeira vez. Ele começa a gritar de novo e dessa vez consigo decifrar o que está sendo dito. O querido grita “cartão, p$#ra!” com um sotaque carioca. Me lembro que o Flamengo está jogando neste horário e dou uma de “Sherlock Holmes” e presumo que o vizinho é flamenguista.

Não para por aí. Ele cria toda uma atmosfera de estádio em seu apartamento, que não é dos grandes. Um imóvel de 36 m², minúsculo, que o ramo imobiliário costuma chamar de “estúdio” (uma gourmetização para quitinete). Este ambiente criado pelo querido vizinho, além de gritos dignos de um fanático de torcida organizada, também conta com um cheiro de mato queimado no corredor. If you know what I mean. É xingando o juiz para cá, gritando com os jogadores em campo pra lá, enfim, na cabeça dele, os jogadores estão ouvindo ali o que ele tá dizendo. Não só eles, como o prédio todo.

Não gosto de ser aqueles vizinhos chatos que reclamam de tudo, pois não moro aqui e muito menos faço isso onde eu moro. Mas acordar cedo pra trabalhar amanhã não será tarefa fácil.

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  1. Infelizmente tenho que concordar com Vc,estes torcedores fanáticos acham que todos tem que aguentar a baderna que eles fazem,não importando quem sejam seus vizinho.

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Sobre o que sobra do Samba

Sou um roqueiro. Irrefutavelmente, um roqueiro. De todas as sazonalidade que vivo, o rock talvez seja a maior constância, como uma pedra atemporal entre águas transitórias.

Mas, confesso, ando meio enjoado de rock. Por mais que eu ame camarão, em excesso eles me causam alergia; desta forma, venho expandindo as fronteiras do meu gosto musical nos últimos anos.

Naveguei pelas águas do blues e do jazz, peguei onda na MPB e na música clássica, mas com alguma frequência atraquei na praia do samba. Areia estranha a desta praia.

O samba me causa uma dualidade de sentimentos. Me faz querer sacolejar de modo esquisito, tipo aqueles nenéns que mal andam e querem dançar, mas ao mesmo tempo o samba me faz submergir num condensado frio de melancolia. E isso nenhum outro estilo me faz.

Dizia que sou um roqueiro. O rock é intenso, como uma paixão púrpura; é como sexo, com todo seu fulgor. O samba é como aquele amor que não deu certo, bonito, profundo e triste. Sobretudo triste. Mas ainda assim bonito.

Não consigo passar impassível pelo samba. Ao zarpar de sua praia, suas areias esquisitas me acompanham, grudadas nos meus pés.

Sobre o que sobra do Samba? Uma ressaca. Ressaca de Samba.

E esta crônica, naturalmente.

A comédia e o mau humor

Outro dia fui até um famosos clube de comédia em Curitiba assistir um show de Stand Up. Nos últimos tempos o gênero tem me atraído bastante, posso sentar numa mesa, pegar um drink e não preciso falar com ninguém. Perfeito para quem não é muito afeito a ser sociável.

Sentei na minha mesa na companhia de um livro – sim, levo livros para os lugares – e aguardava o show começar, quando a mesa ao lado foi ocupada por uma uma galera. Puta pessoal bonito. Se fossem cachorros, seria uma mesa de Golden Retriever, sedosos e elegantes. E eu ali do lado, com minha cara e porte do Pug.

O show iniciou e o comediante deu início à sua torrente de piadas. Eis que em dado momento ele fez uma  sátira contra um eminente político, cuja capacidade de fazer o número um estava comprometida. O número um, pois sua capacidade de fazer o número dois é notadamente reconhecida.

Os Golden Retriever se tornaram Pit Bulls. Trocaram olhares de descontentamento, e estamparam uma expressão sisuda em seus semblantes. Claramente a piada não agradara. Pobre do comediante continuou seu espetáculo sendo fuzilado pelos olhares da mesa ao lado. Não riram de mais nada. Desnecessário dizer que sequer aplaudiram o artista.

Fiquei ali, achando divertida a situação. A piada é o auge daquilo que é lúdico, é concebida para causar o riso – pode falhar neste intento, mas é uma piada, não uma Tese de Doutorado. Se descarta e a vida continua, oras.

Temo que nos tornamos mimados, desmasiadamente mimados, onde ouvir um dissabor se torna prontamente uma ofensa pessoal grave. Somos mais propensos às vaias do que aos aplausos.

Prefiro continuar aqui, se não rir do comediante, ao menos rio da reação alheia, aplaudindo, sarcasticamente, o mau humor.