O vizinho flamenguista

Curitiba, 10 horas da noite. Estou na casa da minha namorada, enquanto ela faz um trabalho do mestrado e eu começo a fazer as postagens do meu blog. Vi mais cedo no jornal esportivo na TV (sim, assisto TV às vezes), que o Flamengo iria jogar. Simplesmente ignoro, pois acompanho mais os times daqui do que os de fora, mas nada contra quem gosta. O vizinho do prédio começa a gritar enlouquecidamente. Ignoro na primeira vez. Ele começa a gritar de novo e dessa vez consigo decifrar o que está sendo dito. O querido grita “cartão, p$#ra!” com um sotaque carioca. Me lembro que o Flamengo está jogando neste horário e dou uma de “Sherlock Holmes” e presumo que o vizinho é flamenguista.

Não para por aí. Ele cria toda uma atmosfera de estádio em seu apartamento, que não é dos grandes. Um imóvel de 36 m², minúsculo, que o ramo imobiliário costuma chamar de “estúdio” (uma gourmetização para quitinete). Este ambiente criado pelo querido vizinho, além de gritos dignos de um fanático de torcida organizada, também conta com um cheiro de mato queimado no corredor. If you know what I mean. É xingando o juiz para cá, gritando com os jogadores em campo pra lá, enfim, na cabeça dele, os jogadores estão ouvindo ali o que ele tá dizendo. Não só eles, como o prédio todo.

Não gosto de ser aqueles vizinhos chatos que reclamam de tudo, pois não moro aqui e muito menos faço isso onde eu moro. Mas acordar cedo pra trabalhar amanhã não será tarefa fácil.

0 Comments

  1. Infelizmente tenho que concordar com Vc,estes torcedores fanáticos acham que todos tem que aguentar a baderna que eles fazem,não importando quem sejam seus vizinho.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Uma cidade em uma rua: o Calçadão da XV

Caetano Veloso, no clássico da MPB “Sampa”, afirma que algo acontece em seu coração quando encontra a esquina da Ipiranga e a avenida São João. Assim como Caetano, algo acontece em meu coração, mas curitibano que sou, quando caminho no calçadão da XV.

Sempre digo que Curitiba é uma cidade de extremos, e seus extremos estão gravados ali, naquele trecho de menos de menos de um quilômetro de cheiros esquisitos. Os engravatados apressados – grupo em que me enquadro – e os moradores de rua. Os malandros em seus pequenos delitos e as crianças puxadas pelos bracinhos com seus olhos curiosos, encantados pelos prédios históricos. As figuras folclóricas da fauna urbana de Curitiba, e as multidões anônimas e vem e vão. Um microcosmos em forma de rua.

Caminhar na XV por vezes exige sua quota de paciência, principalmente se você não quer almoçar. Ou fazer exame de vista. Ou fazer um empréstimo. Ou qualquer outro dos inúmeros motivos que rendem uma abordagem, que sabemos, não são poucos. Talvez você só queira tomar um chopp antes do almoço, o que é justíssimo, ou se distrair com um artista de rua, um dos meu hobbies favoritos por ali.

Mas de tudo que me chama a atenção, me intriga os rostos sem nome que se sentam nos bancos da XV, com o olhar cansado, observando o teatro da vida real onde todos somos coadjuvantes. Talvez seja só um cigarro sendo queimado no intervalo do serviço, ou o justo descanso de quem colocou o pé no centro logo cedo, mas o semblante de desesperança de algumas pessoa me desperta sentimentos inominados.

Isso e os velhinhos que se sentam na Boca Maldita para jogar conversa fora. Lembrar dos amigos que se foram ao lado dos que restaram, e se alegrar com as alegrias que permanecem entre todas as outras que uma vida finita inevitavelmente nos leva.

Meus passos rápidos logo me levam até a estação central, e me obrigo a sair dos meus devaneios para não ser atropelado pelo Santa Cândida-Capão raso. Rio comigo mesmo da ironia da hipotética manchete “cronista do busão é atropelado por um busão”. Cada passeio na XV é um filme que não pode ser revisto, um espetáculo de apresentação única – de onde eu saio, sem ele sair de mim.

Alguma coisa acontece no meu coração.

 

Curitiba não tem mar, Curitiba tem bar

Dizem que Paulo Leminski, o grande poeta curitibano, conhecido pela vida boêmia, uma vez afirmou: “Beber em Curitiba é autodefesa”. Sabia das coisas, o Leminski.

Curitiba é uma metrópole com realidades completamente diferentes, mas, da Caximba até o Batel, uma coisa une todos os Curitibanos. A paixão por um bom boteco.

A paixão dos Curitibanos por bares talvez esteja atrás somente da paixão pelos Shoppings. Passear em Shopping é “O” programa da família curitibana. Para comprar roupas? Não, Curitibano que se presa só dá uma olhadinha. Para ir ao cinema? Não, Curitibano que se presa só vai até a frente, reclama dos filmes e do preço da pipoca. Curitibano entra em Shopping para passear. E ir ao banheiro, graças ao bom Deus e aos tios e tias da limpeza, que salvam a nossa vida quando a coisa aperta no centro.

Fato é que todo o Shopping também tem seu bar – provavelmente para você tomar uma depois de cometer a loucura de estourar o limite do cartão.

Mas aí é que está o pulo do gato. O bar para o Curitibano não é necessariamente um espaço físico, mas um ambiente de confraternização entre os amigos, com um isopor de cerveja que seja. Não tem bar aberto? Tem posto! Curitibano socializa neste momentos.

E ainda nos chamam de antipáticos! Que bobagem sem tamanho! Já viram Curitibano num bar? Depois de um rabo de galo? Não existe criatura mais sociável. Sou curitibano nato, e posso garantir, grande parte dos meus amigos eu faço no bar. Na fila do banheiro, então, nem se fala.

Duas verdades:

Não existe Curitibano fechado, existe Curitibano que ainda não fez seu happy hour.

Não existe Curitibano fechado, existe Curitibano que está de ressaca do happy hour anterior, que se estendeu e foi até de manhã no gato preto.

Afinal, quem precisa de mar?