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Blonde (2022): quando a denúncia se torna cumplicidade

Baseado no livro homônimo da escritora Joyce Carol Oates, Blonde propõe um exercício de ficção em torno da figura de uma das maiores estrelas da história do cinema, a atriz Norma Jeane, mais conhecida como Marilyn Monroe. O longa tem produção da Netflix e a missão de adaptar a história para as telas ficou a cargo do diretor neozelandês Andrew Dominik, mais conhecido pelo filme O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007).

Os primeiros 20 minutos já são mais que suficientes para que o espectador entenda qual será o tom do filme pelas próximas 2h27 e de que forma Dominik irá lidar com essa história que é permeada por traumas. Afinal, nesse curto intervalo de tempo já é possível ver agressões físicas, abuso infantil, uma tentativa de assassinato e uma cena de estupro. Além disso, é possível identificar algumas escolhas estilísticas que também irão permanecer durante todo o filme, como a troca de aspect ratio (formato do quadro cinematográfico) e a alternância entre filmar em cor e em preto e branco. Ambas escolhas são completamente esvaziadas de sentido, já que não encontram nenhuma função na narrativa que não seja meramente estética.

Não há como julgar a intenção de um filme, apenas o resultado final. E por mais que Blonde tenha intenção de denunciar os abusos que acontecem não somente com a protagonista, mas também com as mulheres em Hollywood de maneira geral, o que acontece na prática é exatamente o oposto. Dominik se torna cúmplice do que parece querer condenar ao reduzir a figura emblemática de Monroe a uma mulher cujo único propósito é o sofrimento e este não pode ocorrer de qualquer modo, já que a angústia da personagem é sempre capturada de uma maneira estéticamente agradável. Consequentemente, a estrela de cinema Marilyn Monroe se apaga quase que completamente, já que sua relação com os próprios filmes é sempre tratada de maneira superficial e/ou exploratória, seja indo às lágrimas na leitura de roteiros ou quando enfim aparece durante a gravação de um dos momentos icônicos de sua carreira no filme O Pecado Mora ao Lado (1955), cena que não apenas trata o acontecimento como mera objetificação masculina, mas também a utiliza como motivação para uma nova agressão.

A escolha isolada de mostrar uma vida repleta de abusos não é necessariamente boa ou ruim, mas o que acontece em Blonde é que o diretor não oferece nenhuma progressão para a sua protagonista em meio a tanta desgraça. Quando vemos Marilyn sofrer não aprendemos nada novo (parece que ela também não) ou sequer temos oportunidade de observar como a personagem lida com tantas questões traumáticas. A montagem, que busca confundir mais do que explicar, também colabora para que haja uma sensação de que o filme está apenas saltando de um abuso para o outro, como se a protagonista estivesse presa numa versão macabra de Feitiço do Tempo (1993) ou algo parecido.

A única questão que permanece ao longo do filme, para além dos repetidos abusos, é a necessidade de Norma Jeane em conhecer seu pai, cujas cartas pareciam ser a única coisa que a personagem tinha de bom e verdadeiro em sua vida. Entretanto, no ato final, a personagem descobre que quem escrevia as cartas em nome de seu pai era na verdade um de seus ex-namorados, ou seja, o único alívio na vida de Norma também era uma mentira. Após esse ponto, não há surpresa alguma com a sugestão de suicídio que encerra o filme.

Por se tratar de uma biografia ficcional, Blonde poderia ter explorado os mais diversos caminhos ou, na pior das hipóteses, ter tratado sua protagonista – uma das maiores estrelas de cinema e da cultura pop de todos os tempos –  com um pouco mais de dignidade. É preciso destacar também que Ana de Armas oferece uma grande atuação e sua caracterização está impecável, especialmente nos trejeitos e no tom de voz assustadoramente parecido com o de Monroe, no entanto, seu talento e dedicação perdem força à medida em que Andrew Dominik opta por fazer um filme completamente apelativo, explorando o sofrimento, o corpo e o peso histórico da atriz a troco de nada, ou melhor, talvez na esperança de conseguir uma indicação ao Oscar.

Texto por André Fernandes

Blonde (2022) está disponível em streaming na Netflix.