Falar sobre “eventos de internet” em Curitiba, quase 15 anos depois, dá uma sensação curiosa: parece que foi ontem — e, ao mesmo tempo, parece um outro planeta. Eu lembro de uma fase em que criar conteúdo era mais tentativa e erro do que profissão; em que a gente desbravava a internet para encontrar pessoas parecidas, trocar referências e, principalmente, provar que dava para construir algo real a partir de um blog, um canal ou uma página.
Foi nesse contexto que um evento virou símbolo daquela Curitiba conectada: o Curitiba Social Media, idealizado pelo empresário e comunicador Sandro Rodrigues. O encontro nasceu em julho de 2011 e, com o tempo, cresceu até virar tradição na cena de cultura digital da cidade.
Um evento que juntava “a internet brasileira” em auditórios de Curitiba
O que mais me marcava (e ainda marca, lembrando hoje) é que o #CSM não era uma reunião pequena: eram painéis, palestras e discussões para centenas de pessoas em espaços grandes, com aquela energia de “todo mundo se conhece pela internet, mas agora está ao vivo”.
A primeira edição, por exemplo, aconteceu no auditório do Museu Oscar Niemeyer, em 2011.
E o evento foi ganhando corpo, mudando de espaços, atraindo mais patrocinadores e aumentando a ambição de pauta — com temas que iam de marketing e redes sociais até humor e negócios digitais.
2011: eu não fui, mas ouvi tudo de quem foi
Eu me lembro especialmente de 2011 porque, se a memória não falha, foi quando tudo começou — e eu não participei daquela primeira edição. Quem foi e me contou bastante foi meu sócio na época, Ricardo Ickert (sócio do Busão Curitiba naquele período).
Ele voltou com aquela sensação típica de quem viu algo “nascendo grande”: gente que já tinha público, criadores em forte ascensão e uma turma que, naquela época, a gente chamava mais de blogueiros e youtubers do que de “influenciadores”.
Pelos relatos e pelo que eu também fui acompanhando naquele período, era o tipo de evento em que você podia trombar com nomes conhecidos da cultura digital brasileira e ver Curitiba se colocando no mapa desse movimento. (A própria história do CSM registra a presença de personalidades de internet e YouTube já na primeira edição.)
Ano após ano, maior: mais gente, mais marcas, mais barulho
O que aconteceu depois foi um padrão bem claro: todo ano parecia maior.
Em 2013, por exemplo, a imprensa já tratava o CSM como um dos grandes eventos de cultura digital do Sul, citando presenças confirmadas e o crescimento da programação.
E a própria trajetória do evento registra mudanças de local, expansão de formatos e a consolidação do encontro ao longo dos anos — inclusive com a evolução do nome (de Curitiba Social Media para Curitiba Social Mix).
Quando Curitiba também subia no palco
Uma das coisas mais legais daquela fase foi ver figuras curitibanas ganhando força (e, em muitos casos, “estourando” nacionalmente). E, no meio desse cenário, nós do Busão Curitiba também entramos na conversa.
A mensagem que eu gostava de levar (e que sigo acreditando até hoje) era simples e poderosa: criem conteúdo, invistam tempo em plataformas próprias, publiquem sobre o que vocês amam — ou sobre o que vocês sabem fazer bem — e usem a internet como vitrine, escola e ponte para pessoas e oportunidades.
Hoje parece óbvio, porque Curitiba e o Brasil estão cheios de creators. Mas, naquela época, “fazer internet” tinha um quê de mato alto: você aprendia fazendo, errava em público, ajustava o rumo e comemorava cada pequena vitória.
A parte que ninguém esquece: a “festa depois” e as histórias improváveis
Quem viveu eventos assim lembra: tinha o dia de palestras e painéis… e tinha o pós-evento, quando todo mundo ia parar em algum bar e as conversas rendiam muito mais que o cronograma do palco.
Eu guardo uma memória bem específica dessa aleatoriedade maravilhosa: uma dessas noites terminou no bar Santa Marta, no Batel. Entre conversas e encontros, rolou carona com um youtuber que estava começando a crescer muito na época, o Julio Cocielo — e a gente foi no Uno do Fred Bola, que (até hoje) segue ligado à cena de improviso e espetáculos na cidade. No fim, deu tudo certo: Cocielo no hotel, eu em casa, e aquela sensação de que Curitiba era mesmo uma “internet presencial”, onde todo mundo se trombava.
O que ficou dessa era do “começamos lá atrás”
Relembrar o Curitiba Social Media (e tudo o que orbitava esses eventos) não é só nostalgia. É reconhecer que havia ali um tipo de coragem coletiva: a coragem de apostar no digital antes de virar regra, de se expor, de aprender, de criar comunidade e de construir referência.
E tem uma parte muito bonita que eu carrego até hoje: volta e meia aparece alguém dizendo que acompanha o Busão Curitiba desde o começo, ou que se inspirou a criar algo próprio depois de consumir nossos conteúdos lá atrás.
Passaram-se quase 15 anos, muita coisa mudou — plataformas, formatos, algoritmos, tendências — mas essa ponte humana continua: quando alguém vem conversar e diz “eu fui impactado por vocês”, eu lembro imediatamente daquela época em que a gente só queria conectar com quem pensasse parecido, ou com quem se identificasse com o que a gente postava.
No fim, talvez essa seja a melhor herança daqueles eventos: eles ajudaram a transformar “internet” em cultura, “criador” em caminho, e Curitiba em um lugar onde muita gente entendeu, cedo, que dava para contar histórias para o mundo.
