[RESUMO] Paulo Leminski (1944-1989), um dos ícones da poesia contemporânea brasileira, viveu em Curitiba, cuja influência é marcante em sua obra. Este texto destaca os lugares e as memórias que moldaram sua trajetória, em homenagem ao autor durante a edição deste ano da Flip.
Curitiba e Leminski
Questionado sobre sua relação com Curitiba, Paulo Leminski respondeu de forma espirituosa: “Porque pinheiro não se transplanta”. Apesar de ter passado parte de sua vida no Rio de Janeiro e em São Paulo, sua conexão com a cidade natal nunca foi quebrada.
Leminski é um exemplo de autor cuja obra está intrinsecamente ligada ao seu local de origem, tornando-se difícil dissociar sua produção literária de Curitiba. Toninho Vaz, biógrafo do poeta, observa que as breves saídas de Leminski sempre foram pautadas por objetivos intelectuais.
As Casas que Contam Histórias
Seguindo os passos de Leminski em Curitiba, a influência de suas residências é inegável. O Edifício São Bernardo, onde morou em 1966, é um dos marcos. No mesmo prédio, conheceu a poeta Helena Kolody e, posteriormente, Alice Ruiz, que se tornaria sua companheira.
A primeira casa que ocupou no bairro Pilarzinho, entre 1976 e 1983, se tornou um espaço de criação intensa. Luiz Rettamozo, amigo e colaborador, recorda do ambiente vibrante, que atraía diversas personalidades do meio cultural. Essa casa, um ponto de encontro, era o local onde Leminski produziu muitas de suas obras.
O Pilarzinho, colonizado por imigrantes poloneses no século 18, mantém sua atmosfera característica. A casa onde Leminski viveu foi substituída por uma construção nova, mas as lembranças do poeta permanecem vivas na comunidade, que ainda abriga casas com características da época de sua ocupação.
Débora de Fátima Mocelin recorda que seu sogro alugou a casa para Leminski, onde frequentadores se reuniam para conversar sobre literatura e música. A amizade com Dico Kremer, fotógrafo que registrou momentos marcantes da vida do poeta, também foi uma parte importante de sua jornada literária.
Flâneur Boêmio
O lado boêmio de Leminski também deixou uma marca na cultura curitibana. Com frequência em diversos bares, ele era uma figura conhecida na cena noturna. O bar Stuart, que fechou recentemente suas portas após 119 anos, era um de seus locais favoritos.
Rettamozo recorda que, embora Leminski também fosse caseiro, era nas noites dos bares que encontrava inspiração e criava muitas de suas obras. Apesar da transformação de alguns locais, como o Bife Sujo, que agora não abre à noite, o legado de Leminski aún sobrevive em Curitiba.
Geografia Intelectual
A formação intelectual de Leminski foi complementada por instituições culturais da cidade. Ele frequentava a Biblioteca Pública do Paraná e o Instituto Neo-Pitagórico, que, embora sirva atualmente apenas para reuniões mensais, mantém sua fachada original. Esses locais foram fundamentais na formação do poeta.
A Livraria do Chain, uma das preferidas de Leminski, resiste ao tempo, enquanto outras, como a Livraria Ghignone, e cinemas que ele frequentava foram perdidos para o comércio moderno. Essa relação com a cidade era marcada por um sentimento ambíguo, conforme Toninho Vaz, refletindo o amor e ódio que Leminski sentia por Curitiba.
Legado de Leminski
Em um poema publicado em sua coluna, Leminski expressou essa dualidade de sentimentos: “Alguma coisa em mim/ Não quer que Curitiba mude…”. Contudo, ele também desejava que a cidade evoluísse, refletindo sua natureza inquieta e criativa.
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