As equipes do Consultório na Rua da Prefeitura de Curitiba realizam, em média, 1.600 atendimentos por mês para 535 pessoas em situação de rua. O trabalho é feito em ruas, praças, viadutos e outros locais, durante o dia e à noite, com a oferta de acolhimento e cuidados em saúde.
Nem sempre o atendimento termina com uma consulta, um exame ou um encaminhamento. Em alguns casos, o primeiro contato é apenas um “bom dia”. Depois, pode vir uma conversa, a aferição da pressão, um curativo ou, semanas mais tarde, a aceitação de uma vacina. A aproximação é feita gradualmente, respeitando o tempo de cada pessoa.
“É um trabalho que traduz um dos princípios mais importantes do SUS: o cuidado precisa chegar a todos. As equipes do Consultório na Rua vão até onde essas pessoas estão, respeitam o tempo de cada uma e constroem caminhos para que elas possam voltar a acessar os serviços de saúde da Prefeitura de Curitiba”, afirma a secretária municipal da Saúde, Tatiane Filipak.
Segundo a coordenadora do Consultório na Rua, Patrícia Vestergaard Dias, a aproximação é parte essencial da estratégia do serviço da Secretaria Municipal de Saúde (SMS).
“O Consultório na Rua leva o cuidado até a pessoa e, ao mesmo tempo, constrói pontes para que ela volte a acessar toda a rede. Nem sempre conseguimos realizar um procedimento na primeira abordagem. Às vezes, o primeiro cuidado é a escuta, é chamar pelo nome, é mostrar que estaremos disponíveis novamente. Temos a compreensão de que aquele primeiro ‘não’ pode significar apenas um ‘não agora’”, explica Patrícia.
Mais equipes e horários
Criado em Curitiba em agosto de 2013, o Consultório na Rua conta atualmente com seis equipes e 41 profissionais. O grupo é formado por médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, dentistas, técnicos de saúde bucal, psicólogos e assistentes sociais.
Desde 2025, o programa foi fortalecido com a ampliação dos horários de atuação e do número de equipes, que dobrou em um ano, passando de três para seis. Desde agosto deste ano, uma das equipes da Matriz atua das 13h às 22h, ampliando permanentemente o atendimento para o período noturno.
“Com a nova equipe, o serviço noturno deixa de ser uma ação vinculada apenas à Operação de Inverno e passa a fazer parte da rotina de cuidado do Consultório na Rua”, explica Patrícia.
A maior parte do trabalho é realizada de forma itinerante. Duas equipes ficam no Distrito Sanitário Matriz, enquanto as demais abrangem os distritos Portão, CIC, Pinheirinho, Tatuquara, Cajuru, Boqueirão, Bairro Novo, Boa Vista e Santa Felicidade.
Além do novo turno até as 22h, há equipes que atuam das 8h às 17h. Uma delas passou, neste ano, a percorrer o Tatuquara e a trabalhar de forma volante por toda a cidade, das 9h às 18h. As equipes do programa são vinculadas à Fundação Estatal de Atenção à Saúde (Feas).
Conhecimento e sensibilidade
O trabalho é realizado em um cenário diferente do consultório convencional, no qual conhecimento técnico e sensibilidade são combinados durante as abordagens.
Uma das equipes da Matriz percorre permanentemente locais próximos à Rodoviária de Curitiba. Nessa área, a médica Elaine Culig acompanha pessoas com histórias, necessidades e relações distintas com os serviços de saúde.
“Na rua, precisamos compreender que cada pessoa tem seu tempo. Às vezes, você gostaria de resolver uma necessidade de saúde naquele primeiro encontro, mas percebe que antes é preciso conversar, escutar e conquistar a confiança”, afirma Elaine.
No Distrito Sanitário do Boqueirão, a equipe que atua na Praça Menonitas também utiliza a persistência como ferramenta de cuidado. O psicólogo Gustavo Medeiros conhece pelo nome muitas das pessoas acompanhadas e ajuda a construir caminhos que vão além das necessidades imediatas de saúde.
“O vínculo nasce quando a pessoa percebe que existe respeito e que estaremos aqui novamente. A partir daí, começam a surgir possibilidades de cuidado”, conta Medeiros.
“Aqui eles cuidam da gente”
R.S., 60 anos, atendido pela equipe do Consultório na Rua no Boqueirão, afirma que se sente acolhido pelos profissionais encontrados na Praça Menonitas.
“Eles chegam, conversam com a gente, perguntam como a gente está e tratam a gente bem. Não é só vir aqui uma vez. Isso faz a gente confiar. A gente sente que tem alguém olhando pela nossa saúde e que, quando precisar, pode procurar a equipe”, conta ele.
Persistir sem invadir
Quando a relação de confiança permite avançar, as equipes podem realizar avaliações médicas e de enfermagem, coleta de exames, testes rápidos, vacinação, curativos, retirada de pontos, administração de medicamentos, oferta de implante contraceptivo, acompanhamento pré-natal de gestantes em situação de rua, atendimento da assistência social e encaminhamentos para tratamento em saúde mental.
A saúde bucal também faz parte do atendimento e está entre as ações mais aceitas pelas pessoas em situação de rua. Quando necessário, os atendimentos odontológicos são agendados nas clínicas odontológicas das Unidades de Saúde de Curitiba e nas UPAs.
Os atendimentos também podem ser realizados em dois pontos fixos do Odontomóvel: na Casa de Passagem Padre Pio, no Rebouças, de segunda a quinta-feira, nos períodos da manhã e da tarde; ou próximo à US Parolin, às sextas-feiras, durante o dia.
Trabalho em rede
O Consultório na Rua atua em conjunto com os demais serviços do SUS Curitiba. Quando uma necessidade não pode ser resolvida diretamente pela equipe, os profissionais articulam o atendimento com outros pontos da rede, como as unidades de saúde, os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e as UPAs.
Também pode haver atuação conjunta com serviços como a Fundação de Ação Social (FAS), o Conselho Tutelar, a Rede de Proteção e a Guarda Municipal.
Com informações da Prefeitura de Curitiba.
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