A apresentação de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl LX, realizada no último domingo (8), na Califórnia, transcendeu o que seria apenas um espetáculo musical. Ao celebrar a cultura latina em um dos maiores palcos esportivos dos Estados Unidos, o cantor porto-riquenho causou reações intensas dentro da ala trumpista e aprofundou a guerra cultural no país, especialmente com as eleições de meio de mandato se aproximando.
Reações Controversas ao Show
A reação mais forte veio do ex-presidente Donald Trump. Em sua conta na rede social TruthSocial, Trump classificou o show como “uma afronta à grandeza da América” e afirmou que “ninguém entendeu o que ele cantava”. Além disso, descreveu a dança de Bad Bunny como “repugnante, especialmente para crianças”, considerando a apresentação um “tapa na cara dos Estados Unidos”.
As críticas se espalharam entre aliados do movimento Make America Great Again (Maga) e influenciadores conservadores, refletindo um descontentamento com o fato de o show ter sido realizado quase totalmente em espanhol, o que, segundo esse grupo, simboliza uma quebra dos “valores tradicionais norte-americanos”.
Além da língua, essa reação revela um medo subjacente: a possibilidade de que a influência cultural latina esteja se convertendo em poder político, algo que poderia ameaçar o movimento Maga.
Bad Bunny e seu Marco Histórico
- Bad Bunny, nome artístico de Benito Antonio Martínez Ocasio, tornou-se o primeiro artista latino a apresentar um show solo durante o intervalo do Super Bowl, e o primeiro a fazê-lo majoritariamente em espanhol.
- A apresentação incorporou ritmos caribenhos, referências à vida em Porto Rico e elementos culturais, como idosos jogando dominó e agricultores com trajes tradicionais.
- Durante um dos poucos momentos em inglês, o cantor afirmou: “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”.
- Em outra passagem, ainda em inglês, ele usou a expressão “God Bless America” e mencionou todos os países do continente americano.
O espetáculo atraiu mais de 135 milhões de espectadores, conforme dados preliminares, estabelecendo um novo recorde histórico para shows de intervalo.
A Contradição do Trumpismo
O sucesso do show revelou uma contradição dentro do trumpismo: enquanto o ex-presidente e seus aliados criticam a cultura latina, a NFL busca expandir seu alcance para esse público, tanto nacional quanto internacionalmente.
O impacto foi imediato. O deputado republicano Andy Ogles, do Tennessee, solicitou ao Congresso uma investigação formal contra a NFL e a NBC Universal, alegando que o espetáculo exibiu “pura obscenidade” em rede nacional, com coreografias sugestivas e letras de teor sexual. Outros parlamentares, como Randy Fine, da Flórida, também manifestaram intenção de acionar a Comissão Federal de Comunicações (FCC).
Entretanto, a resposta conservadora não foi unânime. Parte da direita advertiu que atacar Bad Bunny pode resultar na perda de votos do eleitorado latino, um dos segmentos que mais cresce nos Estados Unidos. Pesquisas recentes indicam uma desaprovação de Trump entre hispânicos, variando entre 55% e 70%, e estrategistas republicanos temem um refluxo desses votos em favor do Partido Democrata.
Latinos: um Eleitorado Decisivo
Esse cenário potencializa o simbolismo do show. Desde sua volta à Casa Branca, Trump intensificou uma retórica dura contra a imigração, ao passo que Bad Bunny se posiciona como uma voz de resistência cultural.
Durante o Grammy, pouco antes do Super Bowl, o artista declarou: “Antes de agradecer a Deus, vou dizer: fora, ICE. Nós não somos selvagens. Somos seres humanos e somos americanos”.
Natural de Porto Rico, um território dos EUA carregado de desigualdades históricas, Bad Bunny tem mesclado sua música à identidade e políticas culturais. Sem mencionar Trump diretamente no Super Bowl, ele enviou uma mensagem clara de pertencimento e unidade, encerrando a apresentação com a frase “seguimos aqui”.
Para democratas e líderes latinos, a apresentação foi celebrada como um marco cultural e político, ganhando nas redes o apelido de “Boricua Bowl”, em alusão à culinária porto-riquenha. Já para os defensores do trumpismo, o episódio expôs um dilema: apostar na polarização cultural pode energizar a base, mas pode também resultar no afastamento de um eleitorado vital.
Em novembro deste ano, os eleitores dos Estados Unidos irão às urnas para decidir sobre os 435 membros da Câmara dos Deputados, um terço do Senado e diversas autoridades locais. A chamada “eleição de meio de mandato” é crítica para a continuidade do movimento Maga. Atualmente, os republicanos possuem a maioria nas duas casas legislativas, mas a perda de um eleitorado significativo, como o latino, poderia representar um avanço para os democratas.
Se os democratas conquistarem uma das casas, terão condições de frear ações da Casa Branca na segunda metade do mandato de Trump.
