Nos últimos meses, a mobilização militar dos Estados Unidos na América Latina tem refletido diretamente na migração de venezuelanos para o Brasil. Desde a mudança na abordagem da administração Trump em relação ao que é denominado “narcoterrorismo” no Caribe, o número de cidadãos que deixam a Venezuela aumenta significativamente. Entre janeiro e setembro de 2023, quase 148 mil venezuelanos cruzaram a fronteira, mas apenas 71.620 deixaram registros de saída, de acordo com o Observatório de Migrações Internacionais (OBMigra).
Movimento Migratório Crescente
Em agosto, o envio de navios de guerra e cerca de 4 mil militares americanos para a região caribenha começou a impactar o fluxo migratório. Durante esse mês, a Polícia Federal (PF) registrou a entrada de 13.138 venezuelanos no Brasil. Desses, apenas 7.313 foram registrados como saída do país.
No mês seguinte, a situação se intensificou com os primeiros bombardeios americanos a embarcações ligadas ao tráfico internacional. Nesse período, 18.525 venezuelanos ingressaram no Brasil, enquanto 8.268 deixaram registros de saída.
Em paralelo, as solicitações de refúgio também aumentaram. Entre agosto e setembro, 15.965 pedidos de refúgio foram feitos por venezuelanos, que há anos lideram o ranking de refugiados no Brasil.
Cerco Militar dos EUA no Caribe
- A partir de agosto, os EUA implementaram um cerco militar na região do Caribe, utilizando navios de guerra, caças F-35 e até mesmo o porta-aviões USS Gerald R. Ford.
- Segundo Washington, o objetivo dessa mobilização é combater o tráfico de drogas e cartéis, que agora são classificados como “organizações terroristas” pela administração Trump.
- A nova política externa dos EUA permitiu operações militares em outras nações com a justificativa do combate ao terrorismo.
- Um dos alvos é o cartel venezuelano de Los Soles, do qual Trump acusa Nicolá Maduro de ser o líder.
- Até o momento, 20 ataques foram realizados contra embarcações no Caribe e no Oceano Pacífico, embora não tenham sido apresentadas evidências concretas sobre a ligação das embarcações com o tráfico de drogas.
- Recentemente, o presidente americano lançou a operação militar “Lança do Sul” para combater os “narcoterroristas”.
Situação em Roraima
Roraima, com 2,1 mil km de fronteira com a Venezuela, continua sendo o principal destino dos venezuelanos que chegam ao Brasil. Das 174 mil entradas, 74.172 foram registradas nesse estado. Os meses de agosto e setembro, coincidentemente, foram os que apresentaram o maior fluxo de entrada, com 13.330 e 11.142 entradas, respectivamente.
Dentre os que chegaram, 15,3 mil venezuelanos buscaram auxílio na Operação Acolhida, programa humanitário criado em 2018 para acolher imigrantes em Pacaraima e Boa Vista.
Posição do Governo Brasileiro
Em resposta à situação, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) afirmou que monitora constantemente o fluxo migratório por meio da Operação Acolhida e outros programas. O órgão garante que a documentação e regularização dos imigrantes são asseguradas.
“O aumento do número de entradas de venezuelanos observado entre agosto e setembro de 2023, assim como o crescimento do balanço migratório, não representa uma anormalidade. É um comportamento recorrente desde pelo menos 2022”, afirmou o ministério.
Além disso, o MJSP destacou que os meses de agosto, setembro, outubro e novembro têm registrado um aumento significativo na entrada de venezuelanos, especialmente após as eleições controversas na Venezuela, que resultaram na reeleição de Nicolás Maduro, amplamente contestada.
