Em meio a uma intensificação de hostilidades no Caribe e acusações contra o presidente colombiano Gustavo Petro, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, redireciona sua atenção para a América Latina. Este movimento é visto como parte de uma estratégia maior para restaurar a influência dos EUA no cenário geopolítico global, especialmente diante da ascensão da China e das crises internas que o país enfrenta.
Ofensiva Militar e Acusações Diretas
- Recentemente, as tensões se intensificaram nas águas do Caribe. Trump acusou Petro de “liderar o tráfico de drogas” e anunciou a suspensão de subsídios norte-americanos à Colômbia.
- Após as declarações, o secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, confirmou a realização de um ataque militar contra uma embarcação colombiana supostamente conectada ao grupo guerrilheiro ELN, considerado terrorista pelo governo dos EUA.
- O Pentágono afirmou que a embarcação transportava “quantidades substanciais de drogas”, embora não tenha apresentado evidências concretas do envolvimento.
- Em resposta, Petro denunciou a violação da soberania colombiana, alegando que um pescador civil foi morto por forças estadunidenses.
- Nesta terça-feira (21/10), o presidente colombiano acusou Trump de planejar um golpe de Estado contra seu governo.
Análise do Contexto Regional
O historiador Roberto Moll, da Universidade Federal Fluminense (UFF), analisa que a ação de Trump deve ser entendida em um contexto mais amplo, afirmando que o governo recupera a “Guerra contra as Drogas” como justificação moral para sua intervenção na América Latina. Segundo Moll, essa narrativa sugere que a responsabilidade pela crise das drogas nos EUA recai sobre os latino-americanos.
“Para legitimar a intervenção e a exploração da América Latina, o governo recuperou a ‘Guerra contra as Drogas’ como justificativa moral”, afirma o historiador.
Interesses Econômicos em Jogo
A estratégia de Trump combina pressão militar com negociações econômicas direcionadas. Além da Colômbia, o governo dos EUA tem endurecido a postura em relação à Venezuela, imposto tarifas ao Brasil e mostrado apoio financeiro à Argentina, onde aposta no novo governo de Javier Milei.
De acordo com Moll, a política externa americana favorece interesses internos variados. “O avanço de Trump sobre a América Latina busca abrir caminho para investimentos transnacionais assegurados pelos EUA, especialmente na exploração de recursos naturais”, explica. A região é vista como rica em recursos essenciais para o desenvolvimento tecnológico.
A Disputa com a China e os Desafios para o Brasil
A crescente influência da China na América Latina é um fator determinante neste cenário. Nos últimos 20 anos, os investimentos chineses em setores como infraestrutura e energia têm aumentado significativamente, desafiando a primazia dos EUA.
“A China oferece um modelo alternativo, em contraposição ao liberalismo, e Trump tenta afastar Pequim de setores estratégicos”, destaca Moll.
A posição do Brasil é delicada, uma vez que enfrenta tarifas do governo Trump enquanto busca apoio político e maior liberdade de atuação para suas Big Techs. Segundo Moll, apoiar a Venezuela poderá intensificar conflitos com Washington, enquanto uma aliança com os EUA poderá resultar em conivência com ações de agressão.
“O ideal seria que o Brasil buscasse ampliar parcerias internacionais e atuasse como mediador, evitando a interferência na soberania venezuelana”, conclui.
Uma Nova Estratégia para Reconstruir a Hegemonia
Pela adoção de uma política externa mais assertiva e um discurso moralista, o governo Trump visa responder à crise que afeta o poder norte-americano. Os EUA se aproximam da quarta semana de shutdown, estabelecendo uma das interrupções mais longas em sua história.
A estratégia de Trump, no entanto, vai além da retórica contra o narcotráfico e reflete uma tentativa de reestabelecer a hegemonia dos EUA, equilibrando interesses entre aliados que exigem intervenções e uma população que resiste aos custos de tais ações. Moll observa: “A América Latina é o caminho mais fácil para equilibrar essas tensões.”
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