Uma cidade em uma rua: o Calçadão da XV

Caetano Veloso, no clássico da MPB “Sampa”, afirma que algo acontece em seu coração quando encontra a esquina da Ipiranga e a avenida São João. Assim como Caetano, algo acontece em meu coração, mas curitibano que sou, quando caminho no calçadão da XV.

Sempre digo que Curitiba é uma cidade de extremos, e seus extremos estão gravados ali, naquele trecho de menos de menos de um quilômetro de cheiros esquisitos. Os engravatados apressados – grupo em que me enquadro – e os moradores de rua. Os malandros em seus pequenos delitos e as crianças puxadas pelos bracinhos com seus olhos curiosos, encantados pelos prédios históricos. As figuras folclóricas da fauna urbana de Curitiba, e as multidões anônimas e vem e vão. Um microcosmos em forma de rua.

Caminhar na XV por vezes exige sua quota de paciência, principalmente se você não quer almoçar. Ou fazer exame de vista. Ou fazer um empréstimo. Ou qualquer outro dos inúmeros motivos que rendem uma abordagem, que sabemos, não são poucos. Talvez você só queira tomar um chopp antes do almoço, o que é justíssimo, ou se distrair com um artista de rua, um dos meu hobbies favoritos por ali.

Mas de tudo que me chama a atenção, me intriga os rostos sem nome que se sentam nos bancos da XV, com o olhar cansado, observando o teatro da vida real onde todos somos coadjuvantes. Talvez seja só um cigarro sendo queimado no intervalo do serviço, ou o justo descanso de quem colocou o pé no centro logo cedo, mas o semblante de desesperança de algumas pessoa me desperta sentimentos inominados.

Isso e os velhinhos que se sentam na Boca Maldita para jogar conversa fora. Lembrar dos amigos que se foram ao lado dos que restaram, e se alegrar com as alegrias que permanecem entre todas as outras que uma vida finita inevitavelmente nos leva.

Meus passos rápidos logo me levam até a estação central, e me obrigo a sair dos meus devaneios para não ser atropelado pelo Santa Cândida-Capão raso. Rio comigo mesmo da ironia da hipotética manchete “cronista do busão é atropelado por um busão”. Cada passeio na XV é um filme que não pode ser revisto, um espetáculo de apresentação única – de onde eu saio, sem ele sair de mim.

Alguma coisa acontece no meu coração.

 

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  1. Boa Tarde!
    Eu moro na Boca Maldita onde a vida acontece em ritmo de crônica e poesia.
    Os cafés nas esquinas, os libaneses e sonhos de cada dia.
    Tudo ali acontece… entre histórias e vida.
    Meu prédio onde eu moro era antiga Casa do Estudante… sim… muita história de política,Varal de poesia e artistas.
    Minha mãe de 85 ama o lugar onde ela cresceu,trabalhou e hoje aposentada e meu pai adorava o lugar.
    Obrigada pela linda crônica. Parabéns.

  2. Curitiba cidade do Coração de um carioca, que depois que se apaixonou e transformou em amor! Quando falou da XV lembrei dos fantasiados e das estátuas humanas que ficam perto da “Boca Maldita”. Turista de uma vez por ano, mas nunca mais deixei de ir. Saudade de emocionar-me, se a mim perguntarem, não sei o que dizer. Amor não se explica se sente. Que sempre esteja a me esperar de braços abertos, com seu circular centro ao seu coração a me levar. Curitiba sempre hei de amar!!!

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Grupo Risotolândia, em Araucária, anuncia 150 novas vagas de emprego

O avanço da vacinação e o alívio das medidas de restrição frente à pandemia da COVID-19 já reflete na economia. A retomada do mercado faz crescer a oferta de empregos ao redor do Brasil. Aqui no Paraná, o Grupo Risotolândia (especializado em refeições coletivas) acaba de anunciar 150 novas oportunidades para sua matriz, em Araucária. Nos próximos meses, ainda mais vagas serão abertas devido à expansão do Grupo para novos negócios.

As vagas são para auxiliares de cozinha e auxiliares de higienização, para os três turnos de trabalho. O Grupo anunciou que também vai fazer contratações para primeiro emprego e profissionais com mais de 50 anos.

Benefícios: ambiente de aprendizagem, com formação profissional gratuita, Universidade Corporativa, parceria com universidades e escolas de idiomas; alimentação no local de trabalho, vale alimentação, vale transporte, estacionamento gratuito, pagamento de bônus, premiação por tempo de casa, seguro de vida, seguro funeral, plano de saúde, plano odontológico, kit maternidade, convênio com farmácia e para compra de material de construção; para vagas noturnas, adicional noturno de 30%.

SERVIÇO

Os interessados devem comparecer na seda da empresa, em Araucária, com documentação pessoal (CPF, RG, CTPS, Título de Eleitor) nos dias 20 e 21/09 às 14h00.

Endereço: R. Luís Franceschi, 657 – Thomaz Coelho, 

Site: www.risotolandia.com.br

Exposição dos artistas OSGEMEOS no MON reúne 850 itens e atmosfera urbana

Depois do sucesso de público na Pinacoteca de São Paulo, a retrospectiva da carreira dos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo chega a Curitiba. A dupla, famosa no mundo todo pelos grafites urbanos, ficará seis meses em cartaz no Museu Oscar Niemeyer.

OSGEMEOS receberam a imprensa nesta quinta-feira (16) no auditório do Museu Oscar Niemeyer. Acompanhados da diretora-presidente do MON, Juliana Vosnika e do curador da Pinacoteca de São Paulo, Jochen Voltz, eles falaram sobre a carreira e a organização da exposição que entra em cartaz neste sábado (18).

A diretora disse que a ideia de trazer essa retrospectiva para o Paraná surgiu em uma visita na Pinacoteca de São Paulo. “É um trabalho incrível, maravilhoso, crítico, profundo e, para nós no MON, essa é uma experiência única”, afirmou.

Foto: José Fernando Ogura/AEN

Diversas ações com a participação dos artistas estão previstas ao longo desse período. Uma das ideias é chamar paranaenses para interagir com os irmãos. “Existe um trabalho curatorial que precisa ser feito a partir da abertura da exposição. A nossa intenção é gerar essa troca, esses diálogos e poder trazer outros artistas para o MON”, disse Vosnika.

PRIMEIRA INFÂNCIA – No bate-papo com a imprensa, os artistas falaram sobre a relação com o desenho, que surgiu na primeira infância, na década de 1980. A dupla ficou famosa no mundo todo pela qualidade das intervenções urbanas a partir de artes coloridas, lúdicas e críticos. A relação com o hip-hop e o cenário undergound de São Paulo foi determinante na formação da identidade cultural dos irmãos.

“A gente se sentiu muito confortável para abrir esse baú e os nossos segredos para as pessoas. Era muito difícil, no início dos anos 80, conseguir informações e materiais, acho que hoje temos a oportunidade de revelar isso”, disse Otávio. “Nessa exposição sentimos vontade de mostrar essas etapas criativas, nossos erros e acertos, como foi esse processo que nunca parou”, afirmou Gustavo.

Eles sempre tomaram o espaço urbano como lugar de vivência e de pesquisa. A relação com a música e as danças urbanas, o muralismo e a cultura popular foi decisiva para desenvolver um estilo singular, com atmosfera alegre, que acabou se tornando um emblema dos espaços urbanos pelo Brasil e pelo mundo.

EXPOSIÇÃO – A exposição reúne 850 itens, entre pinturas, instalações imersivas e sonoras, esculturas e intervenções. O visitante começa a viagem pelo subsolo da torre do Olho e acompanha a evolução do traço em cada um dos andares até alcançar as características dos personagens mais marcantes.

Para o curador, a mostra surgiu da vontade de trazer para dentro dos museus uma coletânea das obras dos artistas. “Eles trabalham muito com o imaginário coletivo, com o grafite, mas poucas pessoas sabem do trabalho desses artistas no ateliê. Trazer essa visão mais completa é muito importante”, destacou Jochen Voltz.

Foto: Kraw Penas/SECC

Objetos pessoais, como cadernos, fotos, desenhos e pinturas da infância e atuais dos dois irmãos são apresentados ao público pela primeira vez. São peças que fazem um apanhado da carreira da dupla.

As maiores instalações estão distribuídas no Olho. “A gente acredita que a arte tem que te tocar, despertar o imaginário, o lúdico que existe dentro de cada um de nós”, disse Gustavo. “Parece que o Olho é a nossa cabeça hoje porque está tudo junto. A nossa cabeça funciona assim”.

Seus trabalhos contam histórias – às vezes autobiográficas – cujas tramas envolvem fantasia, relações afetivas, questionamentos, sonhos e experiências de vida.

A dupla mantém seu ateliê no Cambuci, antigo bairro de operários e imigrantes na região central de São Paulo, no qual passou a infância e a juventude. A partir da década de 1990, suas experimentações – não só em grafite, mas também pintura em telas e esculturas estáticas e cinéticas – ultrapassaram os limites bidimensionais, culminando na construção de um universo próprio que opera entre o sonho e a realidade.

RETORNO – A primeira visita de Gustavo e Otávio a Curitiba aconteceu em 1994. “Curitiba tem uma cena muito forte de artistas de rua, acho que a gente acompanha muitos deles, sempre trocamos ideias. Gostamos de passar nas ruas, nas avenidas e ver o trabalho deles”, disse Otávio.

OSGEMEOS PELO MUNDO – A volta ao mundo da dupla inclui a participação em mostras nas principais instituições internacionais, como o Hamburger Bahnhof, em Berlim, em 2019, com um projeto concebido em parceria com o grupo berlinense de breakdance Flying Steps – um dos mais premiados mundialmente; a Vancouver Biennale, Canadá (2014); o Moca – Museum of Contemporary Art, em Los Angeles (2011); o MOT – Museum of Contemporary Art Tokyo, em Tóquio, Japão (2008); a Tate Modern, em Londres, Reino Unido (2008), onde os artistas pintaram a fachada; e a Trienale de Milão (2006), entre outros.

Ao longo de sua carreira, os irmãos também receberam convites para criar para os principais espaços públicos de mais de 60 países, incluindo Suécia, Alemanha, Portugal, Austrália, Cuba, Estados Unidos – com destaque para os telões eletrônicos da Times Square, em Nova York (2015) –, entre outros.

SOBRE O MON – O Museu Oscar Niemeyer (MON) é patrimônio estatal vinculado à Secretaria de Estado da Comunicação Social e da Cultura do Paraná. A instituição abriga referenciais importantes da produção artística nacional e internacional nas áreas de artes visuais, arquitetura e design, além da mais significativa coleção asiática da América Latina.

No total, o acervo conta com mais de 9 mil peças, abrigadas em um espaço superior a 35 mil metros quadrados de área construída, sendo 17 mil metros quadrados de área para exposições, o que torna o MON o maior museu de arte da América Latina.

Os principais patrocinadores da instituição, empresas que acreditam no papel transformador da arte e da cultura, são: Copel, Sanepar, Grupo Volvo América Latina, Vivo e Moinho Anaconda.

Serviço

“OSGEMEOS: Segredos”

Produção original da Pinacoteca de São Paulo

Data: a partir de 18 de setembro

Local: Museu Oscar Niemeyer (MON)

Venda de ingressos exclusivamente online, pela plataforma Inti, mais informações AQUI

Olho, Torre do Olho e espaços externos

De terça a domingo, das 10h às 18h

www.museuoscarniemeyer.org.br