A Região Metropolitana de Curitiba (RMC) concentra quase metade do rebanho de búfalos do Paraná. Segundo dados da Produção da Pecuária Municipal (PPM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os 29 municípios da região somavam 22.266 animais em 2025, o equivalente a 47,6% das 46.735 cabeças existentes no Estado.
O crescimento é atribuído à rentabilidade da criação para produtores familiares e à maior presença do leite de búfala e de seus derivados no mercado. Considerado mais leve e nutritivo, o produto vem ganhando espaço nas prateleiras de supermercados, especialmente nas regiões Sul e Sudeste do país.
De acordo com levantamento da Associação Brasileira de Criadores de Búfalos (ABCB), os laticínios receberam cerca de 20,4 milhões de litros de leite de búfala no Brasil em 2024. O volume é quase 20 vezes maior que o registrado em 2001, quando foram coletados 1 milhão de litros.
Na RMC, o destaque está no Vale do Ribeira, onde Cerro Azul e Rio Branco do Sul lideram a produção voltada ao leite. O rebanho regional passou de 8.576 búfalos em 2015 para 22.266 em 2025, um aumento de 13.690 animais, ou cerca de 160% em dez anos.
Cerro Azul, município com 16 mil habitantes conhecido como a capital nacional da ponkan, tem o maior rebanho, com 5.662 cabeças. Na sequência aparecem Rio Branco do Sul, com 4.769, e Adrianópolis, com 3.798.
Itaperuçu, com 2.923 búfalos, e Doutor Ulysses, com 1.348, também estão entre os maiores rebanhos do Estado. Juntos, os cinco municípios somam 18.500 animais, cerca de 83% de todo o rebanho da RMC.
Potencial na gastronomia
A bubalinocultura, nome dado à criação e ao manejo de búfalos, ainda tem potencial de expansão na região, principalmente pela valorização do leite e de produtos como queijos, iogurtes e doce de leite de búfala.
Em agosto, Rio Branco do Sul realizou o 1º Festival do Búfalo, que reuniu cerca de cinco mil pessoas no Bosque Municipal. O evento teve como objetivo valorizar a atividade, aproximar produtores e população e apresentar a importância dos rebanhos para a economia local e seu potencial gastronômico.
A médica-veterinária Inara Corrêa de Almeida, da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento da Prefeitura de Rio Branco do Sul, avalia que a atividade apresenta grande potencial.
“O fortalecimento depende de investimentos em melhoramento genético, nutrição, manejo e assistência técnica, buscando maior eficiência produtiva. A atividade representa uma importante oportunidade de geração de renda, fortalecimento da agricultura familiar e desenvolvimento econômico do Vale do Ribeira”, analisa a veterinária.
Inara também explica que a muçarela de búfala é mais cremosa e suave que a produzida com leite de vaca. “O leite de búfala apresenta maiores concentrações de gordura, proteína e sólidos totais, em comparação ao leite bovino. Enquanto o leite de vaca possui, em média, 3,5% de gordura, o de búfala pode apresentar entre 7% e 8%. Essa composição proporciona maior rendimento na fabricação de derivados. Por exemplo, para produzir 1 quilo de muçarela são necessários aproximadamente 5 litros de leite de búfala, enquanto que com leite bovino podem ser necessários 10 litros”, pontua a veterinária.
Para os consumidores, entre os diferenciais estão os maiores teores de proteínas, cálcio, fósforo e vitaminas. “Essas características agregam valor ao produto e representam uma importante vantagem para a atividade leiteira”, completa Inara.
Captação e suporte aos produtores
Em Rio Branco do Sul, um entreposto capta o leite produzido nas propriedades da região. O produto é destinado principalmente à empresa Levitare, de São Paulo, responsável pelo processamento.
Pequenos produtores também fabricam queijos e outros derivados, comercializados em menor escala no mercado local. A atividade contribui para a geração de renda, o fortalecimento da agricultura familiar e o desenvolvimento econômico da região.
A Secretaria Municipal de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Rio Branco do Sul apoia a bubalinocultura com assistência técnica, capacitação dos produtores e suporte para o cumprimento das exigências sanitárias. Entre as ações estão exames de brucelose e tuberculose e vacinação, medidas que contribuem para a sanidade dos rebanhos e o fortalecimento da atividade.
O secretário municipal para o Desenvolvimento da Região Metropolitana, Thiago Bonagura, afirma que a diversidade agropecuária beneficia os consumidores da RMC.
“Os produtos da nossa Região Metropolitana já têm fama nacional, como as ponkans de Cerro Azul, a louça de Campo Largo, e o leite de búfala está ganhando espaço. Isso é renda para o produtor e bom negócio para todos”, comenta Bonagura.
Segundo o secretário, os Armazéns da Família e os Sacolões de Curitiba são abastecidos por produtos da agricultura familiar. Nos Armazéns da Família, 19 produtos oferecidos nas prateleiras vêm da RMC. Nos Sacolões, praticamente todas as hortaliças são produzidas nos municípios metropolitanos.
Migração do gado bovino para os búfalos
O produtor Welinton Eduardo Cardoso, de Taquaral, em Itaperuçu, criava gado bovino e migrou para a criação de búfalos por considerar a atividade mais vantajosa.
“A fertilidade é muito acima do bovino, cuidando bem, é um animal muito fácil de manter, muito rústico. Além disso, o leite rende muito mais que o de vaca para fazer a mesma quantidade de queijo, praticamente o dobro. Uma búfala pode te dar um quilo de queijo por dia”, compara o produtor.
Ele e a família obtiveram uma linha de crédito pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), voltada à modernização, ampliação e estruturação da propriedade rural, e iniciaram a criação de bubalinos.
Eduardo vende parte da produção para um laticínio e outra parte no comércio local. “Depois do queijo, vi que o doce de leite também era uma boa opção para ganhar mais, pois meu rebanho é pequeno”, explica. “Estamos trabalhando a sincronização de cio, para que os terneiros cheguem juntos, o que facilita o manejo e também nos traz renda extra com a venda dos bufalozinhos”, conta.
A produtora Izima de França de Jesus, de Itaperuçu, também substituiu o gado bovino pelos búfalos e afirma que viu o lucro aumentar. Em 2013, a família comprou dez novilhas e um reprodutor. Atualmente, a propriedade tem mais de 70 animais.
“Já tivemos mais de 100 cabeças, mas agora estamos nessa média de 70”, relata Izima.
A propriedade já produziu queijo, mas atualmente está concentrada na produção de leite. “Neste momento estamos vendendo o leite mesmo, está valendo mais a pena. E vendemos os terneiros assim que desmamam”, conta.
Para a produtora, a rusticidade dos animais é uma das principais vantagens. “Perda é muito pouco, é um gado muito forte, não ficam doentes, o lucro é bem maior”, afirma.
Distribuição dos búfalos pela RMC
1º Cerro Azul: 5.662 búfalos
2º Rio Branco do Sul: 4.769 búfalos
3º Adrianópolis: 3.798 búfalos
4º Castro: 3.467 búfalos
5º Itaperuçu: 2.923 búfalos
6º Guaraqueçaba: 1.352 búfalos
7º Doutor Ulysses: 1.348 búfalos
8º Campo Largo: 1.342 búfalos
9º Curiúva: 1.334 búfalos
10º Campina Grande do Sul: 1.052 búfalos
Fonte: IBGE
Com informações da Prefeitura de Curitiba.
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