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Emo e hardcore em Curitiba: a década em que a capital virou rota obrigatória do underground brasileiro

Entre os anos 2000 e 2010, Curitiba viveu uma das fases mais intensas de sua cena alternativa. Shows lotados, bandas de todo o Brasil e pontos de encontro que marcaram uma geração

Entre o início dos anos 2000 e o começo da década seguinte, Curitiba consolidou-se como um dos principais polos do emo e hardcore brasileiro. Mais do que um estilo musical, o movimento representou um período de forte efervescência cultural, ocupando bares, ruas, calçadas e até shoppings da capital paranaense.

Eram tempos em que vans cruzavam as estradas do país para tocar na cidade, e praticamente todas as bandas que passavam por aqui repetiam a mesma frase no palco: “Curitiba é um dos melhores lugares para tocar”.


Hangar Bar e Ópera 1: palcos que entraram para a história

Dois endereços se tornaram praticamente sinônimos da cena emo/hardcore curitibana. O primeiro foi o lendário Hangar Bar, localizado na Alameda Dr. Muricy, região central da cidade. O espaço ficou marcado por receber bandas de rock dos mais variados estilos, indo muito além do emo e do hardcore, mas sempre com uma programação intensa e público fiel.

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Hangar lotado: “templo do rock” (Foto: Eduardo Moura /Acervo Anderson Lopes)

Outro ponto emblemático foi o Ópera 1, na Avenida Jaime Reis, em frente à Praça do Belvedere. O local também se tornou referência para shows de hardcore pesado, emo melódico e variações do punk, atraindo jovens de todas as regiões da cidade — e até de fora dela.

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Ópera 1 – Créditos: Blog Curitibano Roqueiro

Filas, encontros e identidade urbana

Não era raro ver filas dobrando a esquina antes dos shows. As noites costumavam começar cedo, com diversas bandas de abertura, até que a atração principal — geralmente uma banda de fora do Paraná em ascensão na cena underground nacional — subisse ao palco já de madrugada.

Antes e depois dos shows, os “emos” e hardcores se concentravam em frente aos bares ou em pontos próximos. Um dos locais mais simbólicos desse encontro era o Shopping Mueller, que acabou se tornando um verdadeiro ponto de convivência dessa tribo urbana. Foi ali, inclusive, que surgiram memes e registros bem-humorados da época — inclusive feitos pelo próprio Busão Curitiba, ainda em uma fase mais voltada ao humor.


Bandas que marcaram a cena curitibana

O período foi marcado por uma diversidade sonora impressionante, que ia do hardcore mais agressivo ao emo mais melódico e pop. Bandas como Sugar Kane, Pelebrói Não Sei, Collateral, Colligere, A-ok e Face Out agitavam os palcos da cidade.

No lado mais melódico e popular da cena emo/hardcore da época, nomes como SOMA e Sykltreck atraíam públicos numerosos e ajudavam a ampliar o alcance do movimento.


Uma cena viva, apesar do preconceito

Assim como em outras cidades brasileiras, a cena emo/hardcore de Curitiba também enfrentou zombarias, estigmas e até hostilidades vindas de outras tribos urbanas. Ainda assim, resistiu, cresceu e deixou marcas profundas na identidade cultural da cidade.

Mais do que moda, o movimento representou pertencimento, expressão artística e ocupação dos espaços urbanos. Para muitos, foi ali que surgiram amizades, bandas, coletivos culturais e até carreiras ligadas à música, produção de eventos e comunicação.


Um legado que ainda ecoa

Embora o cenário tenha mudado ao longo dos anos, o legado daquela década permanece vivo na memória de milhares de curitibanos. Festivais independentes, novos espaços culturais e a constante valorização da música autoral em Curitiba carregam traços diretos daquele período intenso.

Assim como quem escreve estas linhas, uma geração inteira viveu essa fase única, que ajudou a transformar Curitiba em referência nacional para a música alternativa — um capítulo essencial da história cultural da cidade que merece ser lembrado, registrado e celebrado.


Um último lembrete (antes que a memória falhe de vez)

E se você chegou até aqui pensando “faltou tal banda”, “faltou tal lugar” — provavelmente faltou mesmo. Foram muitas bandas, muitos palcos, muitas noites e uma cena grande demais para caber inteira em uma única matéria. O tempo passa, a memória prega peças e, como bons veteranos do underground, já estamos ficando velhos para lembrar de tudo com precisão. Ainda assim, fica registrada também a lembrança do 92 Graus, do lendário JR Ferreira, onde entrar no mosh pit era praticamente uma obrigação moral para quem pisava ali. Se algo ficou de fora, fica o pedido de desculpas — e a certeza de que aquela fase do emo e do hardcore em Curitiba foi grande demais para ser esquecida, mesmo que alguns detalhes escapem pelo caminho.

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