Os órgãos de tubo, conhecidos como “reis dos instrumentos”, têm uma capacidade notável de transformar ambientes com sua sonoridade imponente. Esses instrumentos, que podem alcançar alturas superiores a 20 metros, são capazes de produzir uma gama de sons, desde suaves sussurros até estrondos poderosos, por meio de um elaborado sistema de teclados, pedaleiras e tubos. Na região de Curitiba, há 20 órgãos desse tipo em igrejas e capelas, muitos ainda em operação e acessíveis ao público durante missas e eventos culturais. No estado do Paraná, o total de órgãos catalogados chega a 33.
Engenharia e Patrimônio Musical
O organista Khae Lhucas Ferreira Pereira, consultor do Instituto Curitiba de Arte e Cultura (Icac), desenvolveu sua paixão pelo órgão de tubo na infância, durante as missas na Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. “A sonoridade enorme que preenchia o espaço me hipnotizava”, relembra. Hoje, Khae é responsável por tocar o órgão da catedral às segundas-feiras ao meio-dia.
Para ele, o órgão de tubo é mais do que um instrumento musical; é um patrimônio da humanidade. “Ele representa mais de mil anos da história do culto litúrgico no Ocidente e impressiona pela genialidade de sua construção. Assim como as grandes pontes e catedrais góticas, o órgão é uma obra-prima da engenharia”, afirma.
Características Únicas
Contrário ao que muitos pensam, não existem dois órgãos de tubo iguais. Mesmo objetos de tamanho parecido podem resultar em sons divergentes, influenciados por fatores como os materiais dos tubos (chumbo, madeira ou zinco), o design das flautas, o ambiente em que estão inseridos e até as condições climáticas locais.
O funcionamento do órgão se inicia com a introdução de ar por um sistema de foles, que atuam como pulmões do instrumento. Historicamente, essa operação era feita de forma manual, mas hoje se utiliza um sistema automatizado. “O som final depende da construção, da afinação e do espaço em que o órgão se encontra, fazendo com que cada instrumento tenha sua própria alma”, explica Khae.
Outro aspecto interessante é que, muitas vezes, os tubos visíveis na fachada são meramente decorativos; o verdadeiro sistema de tubos está oculto em câmaras internas. Esses tubos são controlados por teclados e pedaleiras, e um único órgão pode ter de um a cinco teclados, possibilitando ao organista uma variedade de timbres e efeitos.
Futuro da Música de Órgão em Curitiba
Na década de 1980, Curitiba contava com um curso voltado para a formação de organistas, oferecido pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. No entanto, o curso foi descontinuado, deixando a formação de novos músicos dependente de iniciativas individuais ou de estudos fora do Brasil. Nos últimos cinco anos, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) inaugurou um curso de construção e manutenção de órgãos de tubo, o primeiro desse tipo na América Latina, que já começa a gerar frutos.
Órgãos de Tubo em Curitiba e Região Metropolitana
1. Igreja da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas – Órgão de 1765
Localizado no Largo da Ordem, é o órgão mais antigo do estado. Com inscrições datadas de 1765 e características góticas, acredita-se que sua origem seja alemã. O instrumento ainda utiliza uma válvula manual para enchimento de ar.
2. Igreja Bom Jesus do Cabral – Maior Órgão do Paraná
Construído em 1963 por Edmundo Bohn, este órgão possui 1.650 tubos, sendo considerado o maior do estado.
3. Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais
Com 1.200 tubos, o órgão da catedral, também da marca Bohn, foi adquirido em 1957 para substituir um famoso órgão Cavaillé-Coll. Atualmente, está na Paróquia Nossa Senhora da Piedade, em Campo Largo.
4. Igreja do Bom Jesus dos Perdões
A igreja abriga um órgão da marca Speith, conhecido por sua sonoridade rica e robusta, inaugurado em 1924, e que passou por reformas, a última em 2017.
5. Igreja de Sant’Anna do Abranches
Importado da Áustria entre 1911 e 1915, o órgão da igreja possui pintura original e está em bom estado de conservação, embora informações sobre seu construtor e aquisição sejam escassas.
