Bolsonaro quer criar tilápia em Itaipu; ambientalistas têm receio

Pesquisador do tema há 45 anos, Miguel Petrelli Júnior, professor do Núcleo de Ecologia Aquática e Pesca da Universidade Federal do Pará afirma que, na realidade, há uma série de riscos atrelados à criação em rios, mesmo que represados

O plano do governo Jair Bolsonaro de transformar as represas de 73 hidrelétricas do País em grandes criadouros artificiais de peixe, a maioria deles para tilápia, um peixe exótico que tem suas origens na África e no Oriente Médio, fez acender um alerta entre ambientalistas e cientistas que estudam o tema.

O maior receio é de que o peixe, que hoje está presente em boa parte das bacias hidrográficas do País, acabe comprometendo outras espécies nativas que ainda resistem nos maiores rios do Brasil, apesar destes terem sido barrados pelas usinas.

Das 73 barragens selecionadas, 60 preveem a criação de tilápia. Outros 13 reservatórios – dos quais seis estão na Amazônia – seriam usados para criação de peixe nativo, ou seja, de uma espécie natural do rio.

O governo refuta cada um dos riscos colocados pelos especialistas e afirma que possui estudos técnicos suficientes para demonstrar que a tilápia não é uma ameaça, que não se adapta às profundidades comuns aos grandes reservatórios e que não é um predador de nenhuma espécie brasileira.

Na terça-feira, Bolsonaro e Jorge Seif Júnior, secretário nacional de Pesca e Aquicultura do Ministério da Agricultura, foram às redes sociais para afirmar que o governo está próximo de viabilizar o cultivo da tilápia no Lago de Itaipu, hidrelétrica binacional que forma um reservatório de 1.350 quilômetros quadrados, na fronteira com o Paraguai.

“O Brasil possui 73 lagos de hidrelétricas sob administração federal que podem servir para o cultivo de até 3,9 milhões/ton/ano”, escreveu Bolsonaro. Seif Júnior complementou: “Hoje, todo o Brasil produz 320 mil toneladas/ano. O potencial, somente de Itaipu, é de 400 mil ton/ano”.

A ideia, basicamente, consiste em lançar gaiolas em trechos dos reservatórios, estruturas conhecidas como “tanque-rede”, que ficam amarradas em boias. Dentro desses caixotes submersos, o peixe é criado desde a sua fase inicial de alevino até o momento de abate.

Riscos

Pesquisador do tema há 45 anos, Miguel Petrelli Júnior, professor do Núcleo de Ecologia Aquática e Pesca da Universidade Federal do Pará afirma que, na realidade, há uma série de riscos atrelados à criação em rios, mesmo que represados. Apesar de a tilápia não ser predadora, tampouco carnívora, é um peixe onívoro que se alimenta do que encontra pela frente. Como é de fácil adaptação e de rápida reprodução, acaba dominando a maior parte dos ambientes. “Em uma situação de escape desse peixe, essa consequência é clara”, diz Petrelli Júnior.

O especialista chama a atenção ainda para o uso de rios que formam esses reservatórios. “Em geral, os produtores colocam essas gaiolas nos braços do reservatório, que são as partes mais sensíveis. Com os dejetos do peixe, aumenta o volume de material orgânico, ampliando a formação de algas, roubando o oxigênio dos demais. Há clara deterioração do espaço ocupado”, explica.

Não é por acaso que, entre ambientalistas, a tilápia é chamada de o “eucalipto das águas”, por se adaptar facilmente a qualquer local, mas consumir a maior parte de seus nutrientes. “A tilápia chegou ao Brasil na década de 1950, para aumentar a piscicultura na Região Nordeste, levar mais proteína. Foi quando ela começou a descer e se espalhou pelo Brasil inteiro. A verdade é que se perdeu o controle, não se consegue mais erradicar”, avalia Petrelli Júnior, que nesta semana foi eleito um dos 100 mil pesquisadores mais influentes do mundo.

O governo contesta cada uma dessas afirmações e defende a criação da tilápia nos reservatórios, proposta que já foi tentada por diversas administrações, inclusive nos tempos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas que pouco avançou.

Ao Estadão, o secretário da Pesca, Jorge Seif Júnior, disse que, no ano passado, o governo deu início a uma série de estudos científicos, envolvendo técnicos e academia, para analisar o projeto em Itaipu e seu impacto ambiental. “A tilápia já está na maioria das bacias hidrográficas brasileiras, mas ela não se estabelece. Ela já tem uma característica de ser presa, e não predadora. Os relatórios mostram que ela não é uma ameaça para as principais espécies nativas brasileiras. Esse é o principal ponto. Nosso maior desafio era saber se seria uma ameaça ou não”, disse o secretário.

Informações Banda B.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Bolsonaro diz que por ele não haveria Carnaval em 2022

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), nesta quinta-feira (25/11), manifestou-se contra a realização do Carnaval em 2022.

“Por mim, não teria Carnaval, mas tem um detalhe: quem decide não sou eu. Segundo o Supremo Tribunal Federal, quem decide são os governadores e prefeitos”, disse Bolsonaro, em entrevista à Rádio Sociedade da Bahia.

“Não quero aprofundar nessa que poderia ser uma nova polêmica. Em fevereiro do ano passado, ainda estava engatinhando a questão da pandemia, pouco se sabia, praticamente não tinha óbito no Brasil, eu declarei emergência e os governadores e prefeitos ignoraram, fizeram Carnaval no Brasil”, prosseguiu.

Leia a reportagem completa no Metrópoles

Consórcio finaliza concretagem das duas torres principais da Ponte da Integração

Conclusão marca o fim da fase de concretagem de grandes volumes da obra, que tem recursos da Itaipu Binacional. Índice de execução da nova ponte já está em 73%

O consórcio responsável pela construção da Ponte da Integração Brasil-Paraguai, que ligará Foz do Iguaçu (PR) a Presidente Franco (Alto Paraná), vai concluir nesta sexta-feira (26) a concretagem do mastro principal na margem paraguaia, que terá 184 metros de altura, da fundação ao topo. No lado brasileiro, o mastro principal já está pronto, com 190 metros, equivalente a um prédio de 63 andares. Com isso, as obras da nova ponte alcançam mais de 73% de execução e investimentos de aproximadamente R$ 170 milhões, conforme o último boletim técnico divulgado pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER/PR). Os recursos são da margem brasileira de Itaipu Binacional.

Os dois mastros principais, que têm formato de “Y” invertido, são as maiores estruturas de sustentação da Ponte da Integração, compostas também por apoios intermediários. A conclusão desta etapa marca o fim da fase de concretagem de grandes volumes da obra. No total, serão usados na construção 38 mil metros cúbico de concreto.

“A partir de agora, os volumes de concreto serão menores e a obra vai ganhar um ritmo mais contínuo, passa a ser um processo de quebra-cabeça”, explicou a engenheira civil Pamela Mocelini, supervisora de execução.

Na última quarta-feira (24), na margem brasileira, foi posicionada a quinta aduela metálica no vão-livre da ponte. Cada segmento (que vai compor a base da futura pista de rolamento) tem 11,9 metros de comprimento, 20 metros de largura e de 50 a 60 toneladas de peso. No lado paraguaio, já foram instaladas três aduelas.

Após a instalação do segmento, ainda é feito o processo de solda das emendas (uma aduela a outra), instalação das lajes pré-moldadas, concretagem de interligação das emendas e, para finalizar o estaiamento da unidade.

Crédito: Rubens Fraulini | Itaipu Binacional

Somente depois da execução dessas etapas é que uma nova aduela é posicionada no vão-livre. Esse processo ocorre simultaneamente nas margens brasileira e paraguaia. Quando a ponte estiver concluída, serão 36 aduelas (18 do lado brasileiro e 18 do lado paraguaio) e uma aduela de fechamento (central).

Como vai ser

A Ponte da Integração, construída sobre o Rio Paraná, terá 760 metros de extensão e vão-livre de 470 metros, o maior da América do Sul. A obra é uma iniciativa do governo federal, com gestão do governo do Estado Paraná e execução do Departamento de Estradas de Rodagem (DER/PR) e recursos da Itaipu Binacional. No total, serão investidos R$ 323 milhões no projeto. A previsão é que a obra esteja pronta até setembro de 2022.

Perimetral

Neste mês de novembro, as obras da Perimetral Leste alcançaram 5,08% de execução, com investimentos de aproximadamente R$ 5,28 milhões. A perimetral terá 15 quilômetros de extensão e vai ligar a Ponte da Integração e a nova aduana argentina às rodovias BR-469 (Rodovia das Cataratas) e BR-277 (saída para Cascavel e Curitiba),

No período, de acordo com boletim técnico do DER-PR, foram instaladas 76 estacas-raiz (de um total de 88) no viaduto da Avenida General Meira e outras 78 (de um total de 90) no viaduto da BR-469. Também avançaram as obras no viaduto da Ponte Tancredo Neves e começaram os serviços de terraplanagem na nova aduana argentina, com o lançamento, espalhamento e compactação de camadas.

Investimentos de Itaipu

A Ponte da Integração e a Perimetral Leste integram o rol de obras estruturantes financiadas na região Oeste do Paraná pela margem brasileira da Itaipu – que incluem a duplicação da pista do Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu (já concluída), a duplicação da Rodovia das Cataratas (em fase de licitação), a revitalização do sistema de transmissão de Furnas, entre outras. A soma dos investimentos da empresa na região chega a R$ 2,5 bilhões.