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Como Curitiba celebrou a Independência do Brasil com missas, mosquetes e festas

Há 204 anos, Curitiba era uma pequena vila, sede da comarca e pertencente à Província de São Paulo. Com poucas ruas, casas baixas e uma população ligada principalmente às atividades do campo, a localidade recebeu a notícia da Independência do Brasil e registrou a celebração nos documentos da Câmara municipal.

Uma descrição feita pelo naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, que esteve em Curitiba em 1820, ajuda a reconstituir o cenário da época. Segundo o relato, a cidade tinha cerca de 220 casas, pequenas, de um pavimento e, em grande parte, construídas em pedra. A praça pública era ampla e coberta de grama. Muitos moradores, agricultores, costumavam ir à vila principalmente aos domingos e dias santos.

Desde 1812, Curitiba era sede da Comarca de Curitiba e Paranaguá, função que antes pertencia à cidade litorânea. Apesar da importância administrativa, a vila ainda tinha dimensões modestas e se concentrava nas proximidades do atual Centro Histórico.

O 7 de Setembro não era, naquele momento, a única data associada às comemorações da Independência. Em 12 de outubro de 1822, D. Pedro foi aclamado Imperador Constitucional do Brasil, em uma cerimônia no Rio de Janeiro que reuniu representantes das câmaras, povo e tropas. A ata da aclamação realizada na Corte registrou a defesa da Independência e da Assembleia Constituinte.

Em Curitiba, a Câmara anotou que, antes mesmo da chegada do aviso oficial sobre a cerimônia, os moradores já sabiam que D. Pedro seria aclamado. Durante a noite, eles iluminaram as casas e deram “muitas salvas em demonstração de seu júbilo”.

No dia 12, a comemoração se tornou oficial. Câmara, militares e moradores se reuniram para a aclamação de D. Pedro. De acordo com o documento, a emoção foi tão grande que alguns participantes chegaram a derramar lágrimas de satisfação.

A ata descreve a presença de “Povo, tropa e mais Nobreza”. Entre os gritos registrados estavam “Viva a Independência do Brasil”, “Viva a Assembleia Geral Constituinte e Legislativa do Brasil” e “Viva o Imperador Constitucional do Brasil o Senhor Dom Pedro Primeiro”. Ao fim, aparece a expressão que se tornaria um dos principais símbolos da data: “Independência ou Morte”.

A cerimônia também teve caráter religioso e militar. Antes da aclamação, foi celebrada uma missa solene na Igreja Matriz, acompanhada de um sermão relacionado ao momento político. Em seguida, houve a oração Te Deum, em ação de graças. A solenidade terminou com três descargas de mosquetaria feitas pela tropa de cavalaria da vila, posicionada em frente à Matriz e aos “Paços do Concelho”.

A área dos acontecimentos corresponde ao entorno da atual Praça Tiradentes, que na época era conhecida como Largo da Matriz. O local reunia a igreja, a Câmara e outras estruturas centrais da vila.

A posição de Curitiba no processo de Independência

Embora a celebração tenha ocorrido em uma pequena vila, a Independência fazia parte de uma disputa política mais ampla. Para o professor de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Luiz Geraldo da Silva, a compreensão do que acontecia em Curitiba depende da posição da localidade nas estruturas políticas e econômicas do período.

Curitiba integrava redes econômicas que conectavam o Sul ao restante da América portuguesa. O trânsito de tropas e, principalmente, de gado pelos Campos Gerais fazia da vila um ponto estratégico entre o Rio Grande do Sul e os mercados do Centro-Sul.

“A cidade estava dentro dessa configuração de tipo moderno, politicamente falando, que é a província de São Paulo. Curitiba foi o primeiro caminho fundamental desse gado, que seguia em direção à Feira de Sorocaba”, explica Luiz Geraldo.

A ata da Câmara indica que a manifestação não se limitou a uma festa pela mudança de governo. O documento registra um compromisso político com o novo Brasil.

Povo e tropa teriam declarado que, pelo “amor” ao imperador e à Assembleia Constituinte, não poupariam “seus bens, seu sangue, e vida”, na expectativa de que D. Pedro mantivesse e fizesse conservar a Assembleia brasileira.

“A grande questão, a partir daí, foi apoiar o príncipe ou apoiar as cortes. Havia uma tendência prevalecente nas províncias do norte a se apoiar às cortes de Lisboa. Enquanto havia uma tendência prevalecente aqui no sul a se apoiar o príncipe”, afirma o historiador.

O posicionamento voltou a aparecer poucos dias depois. Em 16 de outubro, a Câmara registrou o recebimento de um ofício da Câmara do Rio de Janeiro sobre a necessidade de D. Pedro ter liberdade para defender o Brasil dos males que o ameaçavam vindos das Cortes de Lisboa. Na mesma reunião, Curitiba decidiu enviar ofícios ao imperador e ao Senado da Câmara do Rio de Janeiro.

Poucos dias depois da aclamação, a Câmara curitibana já se colocava no conflito político entre o novo governo brasileiro e as Cortes portuguesas. Em 21 de outubro, D. Pedro publicou uma proclamação em que afirmava que as Cortes de Lisboa pretendiam recolonizar o Brasil e apresentava a separação de Portugal como resultado do agravamento das relações entre os dois lados.

O padre curitibano que saudou D. Pedro

Curitiba também esteve representada nos primeiros momentos da Independência pelo padre Ildefonso Ferreira Xavier, nascido na cidade em 1795. Depois de se mudar para São Paulo, o sacerdote teria protagonizado, na noite de 7 de setembro de 1822, uma manifestação pública de apoio a D. Pedro I.

Durante uma peça no Teatro da Ópera, na capital paulista, ele subiu em uma cadeira diante do camarote imperial e gritou três vezes: “Viva o primeiro rei do Brasil”.

A participação do padre foi lembrada em Curitiba durante as comemorações do Centenário da Independência. Em 1922, uma herma em sua homenagem foi inaugurada na Praça Santos Andrade. A peça original foi restaurada em 2020 e levada ao Memorial de Curitiba. Na praça, permanece uma réplica em pedra.

Um curitibano na Corte

A participação de Curitiba continuou depois da celebração. Em 26 de outubro, a Câmara registrou a escolha de um representante para encontrar o novo imperador. O escolhido foi o alferes Cândido Marcondes Ribas, descrito no documento como “natural desta vila” e então residente no Rio de Janeiro.

A missão era representar a Câmara e o povo de Curitiba diante de D. Pedro, felicitá-lo pela chegada ao trono e prestar-lhe homenagem.

Cândido Marcondes Ribas posteriormente faria parte de uma família conhecida na história brasileira. Ele foi avô do médico sanitarista Emílio Ribas, que décadas mais tarde se destacaria no combate às epidemias no país e pela participação na criação do Instituto Butantan.

A ata da Câmara não permite saber exatamente como cada morador da vila recebeu a Independência. Por se tratar de um documento oficial, produzido pelas autoridades municipais, a descrição de uma adesão unânime deve ser considerada nesse contexto.

O registro, no entanto, mostra que a Câmara de Curitiba se apresentou publicamente como apoiadora da Independência. As casas iluminadas durante a noite, as celebrações religiosas, a presença das tropas e os disparos de mosquete indicam que a ruptura com Portugal já fazia parte da vida pública da pequena vila.

Com informações da Prefeitura de Curitiba.

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