O evento “Diálogos Fundo Brasil – ONU no Alto Rio Negro: Encontro de Saúde e Proteção de Povos Indígenas” destacou a importância do conhecimento indígena na formulação de políticas públicas voltadas à saúde, educação, proteção territorial e preservação da biodiversidade no Alto Rio Negro, Amazonas. Realizado em agosto na cidade de São Gabriel da Cachoeira, o encontro reuniu líderes indígenas, especialistas e autoridades em um diálogo sobre a relevância da ciência indígena.
A Importância dos Anciãos na Sabedoria Indígena
O evento enfatizou o papel dos anciãos como “bibliotecas vivas” do conhecimento ancestral. Carla Wisu, antropóloga e gestora do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, ressaltou que esses indivíduos são guardiões de saberes essenciais para a vida e a espiritualidade dos povos indígenas.
Representante da comunidade Cucura Manaus, Wisu disse que a transmissão desse conhecimento é fundamental para a existência do povo indígena e para a manutenção da relação com a natureza e a harmonia comunitária.
Valorização da Medicina Indígena
Durante o encontro, Wisu defendeu a necessidade de políticas públicas que reconheçam e valorizem a medicina indígena e os saberes tradicionais. Segundo ela, essa forma de conhecimento não se limita ao passado, mas serve como orientação para práticas contemporâneas fundamentais para o equilíbrio do mundo atual.
A antropóloga pontuou que a valorização da sabedoria indígena é essencial para a preservação da biodiversidade amazônica e para a manutenção de modos de vida tradicionais.
Ciência Indígena e Preservação da Biodiversidade
Com mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas, Wisu afirmou que os anciãos oferecem uma visão profunda sobre a vida, o cosmos e as relações que sustentam as matas e seus povos. Para ela, a “ciência indígena é a única que pode salvar o mundo”, e o apoio de entidades não indígenas é fundamental para reconhecer a importância desses saberes.
Wisu também destacou a crescente presença indígena em espaços de decisão, com estas comunidades se posicionando cada vez mais em instituições e defendendo uma relação de respeito com a natureza.
Saúde Indígena e Equilíbrio Territorial
A noção de saúde, conforme apresentada por Wisu, vai além da ausência de doenças e envolve aspectos comunitários, territoriais e espirituais. Para os povos indígenas, saúde significa viver em harmonia com o território e manter uma relação ativa com a natureza, manifestada em atividades tradicionais como a pesca, o cultivo de roças e a transmissão de conhecimentos entre gerações.
Essa abordagem reforça a visão de bem-estar indígena como um equilíbrio entre corpo, espírito, território e coletividade.
Início de Projeto de Proteção a Crianças e Jovens Indígenas
O encontro também marcou o lançamento do projeto “Proteção Integral e Promoção dos Direitos de Crianças, Adolescentes e Jovens Indígenas na Amazônia Legal Brasileira”, focado na governança territorial e na bioeconomia. A iniciativa é uma colaboração entre várias organizações, incluindo a Organização Pan-Americana da Saúde, UNICEF, e a Organização Internacional do Trabalho.
Apoio Internacional e Financiamento
A atividade recebeu financiamento do Fundo Brasil – ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, em parceria com o Consórcio Interestadual da Amazônia Legal e os governos do Brasil e do Canadá. A Unesco destaca que as iniciativas discutidas estão alinhadas aos objetivos das Reservas da Biosfera reconhecidas pela agência, promovendo a integração entre proteção ambiental, direitos indígenas e desenvolvimento sustentável na região amazônica.
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